sexta-feira, 17 de julho de 2009

A mentira como condição

O AMOR, à luz da verdade de seus efeitos, decepciona ao romântico. Aquele que participa deste sentimento padece de um drama: o da impossessão. Mas este indivíduo, que a lógica da melancolia explica de maneira pura a sua natureza, o que é que não possui? Ora, não possui um determinado mundo para cujo funcionamento em nada depende dele. Trata-se do mundo da sua amada. Mas sobretudo, pior do que não possuir é não pertencer. Este avaro de uma ilusão necessariamente não pertence ao mundo dela, pela sua condição mesma de amante: é dele excluído desde sempre. E disso ele sabe muito bem. O seu ciúme, sombra do amor que tem, sintoma do seu sentimento, é um sofrimento de não participação daquilo que mais anseia, que é da vida daquela que tanto ama. Aprofundar-se em certas pesquisas (do tipo: “quem é ela quando não estou por perto?”) é desmentir a representação pouco fundada que se tem, posto que a imagem que construiu da mulher se valeu de signos já comprometidos. Ele é como os crentes ou os filósofos dogmáticos, que mil peripécias e métodos inventam para ter acesso às coisas que existem em si (e que prescindem de seu testemunho) para em seguida desvendar o que lá acontece. Os carinhos que lhe oferece, as palavras e juras que o objeto do seu amor profere, tudo isso não é outra coisa que o encobrimento da difícil verdade: ambos os mundos nunca serão um único e mesmo mundo; estes dois personagens nunca serão um só, nunca terão um mesmo espírito, uma mesma alma, uma mesma carne.

"Os signos amorosos (...) são signos mentirosos que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Eles não suscitam uma exaltação nervosa superficial, mas o sofrimento de um aprofundamento. As mentiras do amado são os hieróglifos do amor. O intérprete dos signos amorosos é necessariamente um intérprete de mentiras. O seu destino está contido no lema 'amar sem ser amado'." (Proust e os Signos – Gilles Deleuze, p.9)

4 comentários:

  1. Maravilhoso o comentário e o texto citado!!
    Patinha!!

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  2. Bruno! Acabei de ler seu texto "A mentira como condição" e gostei muito. Fiquei pensando: mas será que deve-se tomar como uma mentira criada essa constatação de que cada um é um e que as pessoas, ainda que amantes e apaixonadas, pertencem a mundos particulares? Não acho que seja uma mentira. Não vejo como algo desencantador. Ao contrário, é essa possibilidade de cada um ser único, pertencer ao próprio mundo e ser indivíduo que faz com que as pessoas se amem. Porque você ama o outro e o mundo dele, o universo dele (ou o universo que ele te mostra ao se apresentar pra você). Por isso que eu acho que é possível amar o outro. A impossessão não impede o amor, na minha opinião. Beijos
    Janaína Faustino

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  4. Há o bom e o mau amor. O mau amor é aquele que enxergamos na pessoa amada a coisa perdia, aquilo que irá preencher a nossa falta. Ambos padecem da opressão deste sentimento, tanto nós que amamos quanto a que é amada. Já o bom amor é o sentimento que temos pela outra pessoa sem reduzi-la a um fantasma nosso; é quanto se ama a outra pessoa mantendo o seu lugar de outro em relação a nós, é o amor pelo outro na sua liberdade, naquilo que a pessoa é, na sua vida com as suas particularidades. Em suma, trata-se de um amor não narcisista.

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