sábado, 1 de maio de 2010

Imobilidade e Indiferença do que já é morto

ENCONTREI um trecho muito curioso em Madame Bovary, obra de Gustave Flaubert. Vi no curto parágrafo um drama, ou pior, a solidão daquele que vive um drama, também presente em Augusto dos Anjos em seu Poema Negro. Na expressão do primeiro, lemos: “Os móveis (...) pareciam ainda mais imóveis”; na do segundo: “E a impassibilidade da mobília”. Imobilidade e indiferença das coisas mortas acentuam o sofrimento dos que têm como único rumo a morte, cuja lembrança a perda ou a sua iminência é responsável. O cenário de fundo de ambos é a casa, lugar tornado estranho pelo seu aspecto morto na noite do olhar de quem padece por existir. Passagem, portanto, do aconchego do lar para a frieza de tudo aquilo que é morto no seio mesmo de seu único refúgio contra o mundo, erroneamente considerado o “lado de fora”. No meio desta fúnebre atmosfera personagens que sofrem a dor da perda ou o peso do vagar lento do tempo.

Os móveis, em seus lugares, pareciam ainda mais imóveis e perdiam-se na sombra como num oceano tenebroso. A lareira estava apagada, o relógio continuava a bater e Emma sentia-se vagamente espantada com aquela calma das coisas enquanto nela mesma havia perturbação. (Gustave Flaubert, Madame Bovary, p. 149, 150)

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.
(Augusto dos Anjos, Poema Negro)

6 comentários:

  1. Fala, Bruno, tudo bem? Muito legal a associação que você fez.
    A imobilidade - que suscita frieza, indiferença - das coisas surge como extensão da subjetividade das personagens. A tristeza e a solidão expandem-se na descrição, abarcando inclusive as coisas; o espaço e os objetos refletem dessa forma o sentimento, o olhar daquele que sofre. A imobilidade exterior (elemento estático) se contrapõe e portanto intensifica a perturbação e a dor internas (elementos dinâmicos).
    Abraços!

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  2. Este contraste entre o excesso de vida no interior daquele que vive o drama e a imobilidade e indiferença das coisas é algo bastante explorado nesses autores. O que pra gente é central, por exemplo os nossos sofrimentos, do ponto de vista do real ele não é nada. Eis a nossa verdade. Se Deus existe, para que seja justo, ele deve ser necessariamente indiferente ao que consideramos mal, que, como se pôde ver, não passa de nada.

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  3. A palavra alma vem de anima. Só possui alma o que é animado, e este se contrapõe ao inanimado, ao que não possui alma. Houve um período na Europa, séc. XVII e XVIII, em que algumas pessoas, motivadas por um fascínio qualquer, tinham a mania de criar autômatos: bonecos que reproduziam movimentos humanos, assemelhando-se a eles. E. T. A. Hoffmann tem contos admiráveis que tratam desta moda e, através da música, mostra o contraste da riqueza da vida interior do que é vivo com o que não é.

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  4. Interessante! Valeu pela dica! Vou procurar esses contos;fiquei curioso...

    Abraços

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  5. Eu tenho o livro 'Contos Fantásticos' desse autor. Posso te emprestar.
    Abraços....

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