quinta-feira, 2 de junho de 2011

Alguém disse "riqueza da vida interior"?

"PRIMEIRO como tragédia, depois como farsa" é um livro recente de Slavoj Žižek, filósofo de estilo próprio que se utiliza da psicanálise para pensar os fatos da política e da cultura dos dias atuais. Num determinado capítulo do livro, mais precisamente o capítulo cujo nome é tomado de empréstimo do livro de Nietzsche Humano, Demasiado Humano..., encontramos algo acerca da falsidade da vida interior. Como uma espécie de refúgio para certos "inconvenientes" da vida social a que nos submetemos, a vida interior e toda a sua "riqueza" é vista por ele como um biombo que nos afasta da realidade daquilo que somos. É comum quem se acha um "tesouro a ser descoberto", "talento [ainda] não reconhecido", "gênio não compreendido" etc. Mas essas diversificadas maneiras de se referir a si mesmo é fundamentalmente cega quanto a verdade do que se é. O que se pode concluir disso é que é preciso escapar do perigoso vício da profundidade para perceber que somos o que aparentamos ser, somos isso mesmo o que as aparências de nós revelam ao outro; o que lá dentro nos contamos que somos é o que pensamos ser, mas de forma alguma o que de fato somos. Há mais verdade nas aparências que na interioridade de nosso eu posto no discurso íntimo, discurso conhecido como "monólogo interior". O efeito dessa duplicação entre o que se é interiormente e a forma pela qual se dá o reconhecimento por parte do outro não passa de artimanha de afastamento para que não se dê conta da verdade do desejo, que já se realiza no dia a dia. O nosso desejo é a medida do que temos, somos e fazemos, embora na maioria das vezes achamos que queremos outras coisas mais. E o refúgio dessa pequenez? Ora, a vida interior com seus doces recantos, projetos, sonhos, taras. Artur da Távola não se cansava de repetir um jargão, que dizia "Música é vida interior; e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Pensar a possibilidade de uma riqueza interior, de uma experiência sublime íntima por meio da música é bastante interessante na medida em que toma como vão o esforço de se decifrar internamente, de se contar para si acerca de si, narrar o que se é com palavras, pois estas mesmas palavras, usadas para esse intuito, de nada servem, e isso pela própria natureza do significante. Pois bem, o texto do Žižek:

Nossa experiência mais elementar de subjetividade é a "riqueza da minha vida interior": é isso que "realmente sou", em contraste com as determinações e responsabilidades simbólicas que assumo na vida pública (pai, professor etc.). Aqui, a primeira lição da psicanálise é que essa "riqueza da vida interior" é fundamentalmente falsa: é um biombo, uma distância falsa, cuja função, por assim dizer, é salvar as aparências, tornar palpável (acessível a meu narcisismo imaginário) minha verdadeira identidade simbólico-social. Assim, um dos modos de praticar a crítica à ideologia é inventar estratégias para desmascarar a hipocrisia da "vida interior" e suas emoções "sinceras". A experiência que temos de nossa vida por dentro, a história sobre nós que contamos a nós mesmos para explicar o que fazemos é mentira; a verdade está, antes de tudo, do lado de fora, naquilo que fazemos. (...) As "histórias sobre nós que contamos a nós mesmos" servem para confundir a verdadeira dimensão ética de nossos atos. (Slavoj Žižek, Primeiro como tragédia, depois como farsa, P. 44)

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