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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Circular

Louva o centro e o estável
o que se movimenta
num percurso orientado
pelo fim a que se encaminha,
pela origem de que não se desprende.
Com tal modelo de movimento,
na trajetória percorrida
o “herói” da aventura rasa
viaja a falsa viagem e colhe
pouco do que se lhe oferece:
sempre à distância e
no conforto das garantias,
é incapaz de enfrentar
os riscos dos rios de risos.
Para bem caber dentro de si,
jamais se desamarra da
sua imagem-cápsula e
atravessa o espelho.
Se lançado no continente
das incertezas busca ele
o firme das pedras nas
coisas que consome,
como na música que ouve,
que o leva mas que não
deixa de trazê-lo de volta;
não sendo ela “o barco bêbado”,
não faz mais que “dar um giro”
em torno de um eixo
“imóvel”, o centro tonal.
Deus é a nostálgia do fixo.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Ver

Não pinto, não desenho,
posto que, como acreditam
os cegos no que tocam,
acredito eu no que vejo:
a solidez das coisas
me constrange de
fazer rabiscos,
traçar formas,
duplicar em semelhanças.
Não ousaria um tal sacrilégio.
Reproduzir é reduzir à miragem.
O que sobrevive à sua própria imagem?
De meus olhos dogmáticos me
resta o jogo de deslocar palavras,
que sei não serem coisas mas posições.
E se as mudo de lugar é
porque não as levo a sério.
Como figuras, brincando de montar
sentenças vejo no que dá para,
assim, alcançar algum princípio
de desmanche de todo o visto;
o antes maciço não redunda
em ilusão, mas se multiplicam
as suas camadas, que são,
antes, etapas de mim.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Em si

Um instante acontece sem
tecido algum preexistente a ele;
nenhum espaço, mínimo que seja,
subjaz às coisas antes
de serem elas coisas.
É sobre um fundo de nada
que o que existe se desdobra,
pois não tem do mundo um “fora”
e só o que há, há.
Metamorfósica,
sem forma última
ou primeira,
em fluxo por um ralo
sem o outro lado,
de si para si mesma
a vida escoa
sem porquê.

domingo, 26 de novembro de 2017

Estátua na sala

Antes de os bisavós de
hoje nascerem, a estátua
já possuía forma, existia.
E aos bisnetos dos filhos
daquelas com as quais
cruzarei amanhã, sobreviverá
a pequena peça, que agora na sala
se destaca por sua empáfia.
De seu lugar mostra-se
gasta, mas é só aparência.
Coisa opaca, tem a solidez
calma de um ponto fixo.
A casa passará, os móveis
são menos que geleias
ou cera ao sol.
Em revanche aquilo
dura em permanência
indefinida: sustentará,
firme, a forma mais que
todo vivo sem dureza.
Peça quase absoluta,
é impassível ao drama do
fim a que toda carne que
estraga está entregue,
tamanha força é essa
presença perante a
qual tudo é leve, macio...
Nos apertados poros
do seu bronze o tempo
parece não penetrar.
Em confim algum nada
mais material e desprovido
do espírito quanto tão
próximo do que se
poderia chamar de divino.
Ao meu corpo em delírio,
quente e mole, quase vazado e
desejoso ao limite do que o
leva ao desespero, o
silencio frio do metal
gelado diz no íntimo
que quando toda a terra
secar e não sobrarem
mais que restos disformes do
que um dia foi uma figura
moldada, não haverá memória
alguma em que esteja registrado
tudo o que hoje há.
Aquela estátua-soldado
não terá havido, então.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Luas

Por trás das pálpebras,
vê-se luas, como se numa tela.
Com os globos cobertos,
visão obstruída,
o referente de luz
destes astros é o sol,
não o do agora
mas o de instantes
atrás, quando a vista
ainda se expunha.
Na memória da retina,
as marcas-brilho,
luminosidades doces,
luas que diferem da outra,
matéria giratória
presa à forma, o
astro cor-áspera,
quase esquecido
não fossem os astronautas
e alguma dor refletida.

sábado, 23 de setembro de 2017

Certo aprumo

O que não vem pra sala,
isso que não é liberado,
nalgum lugar se instala,
noutra corrente emperrado.

Mesmo não existente,
aporrinha, faz coçar.
Traces no ausente,
pra coisa a rota acertar.

Não pode calhar palavra errada,
pois aquilo se cala mais ainda;
um desvio, perder o fio da meada,
tal antes mesmo de nascer já finda.

Ter no peito um suspiro?
Ou riso insinuado no rosto?
Antes, desembaralhes o delírio,
ames o porvir com sede e gosto.

E que se lance outra verdade
sem precisar ser poliglota.
Quem sabe surjam novas cidades!
Apruma a fala à tua revolta.





segunda-feira, 15 de maio de 2017

Estrela Preta

No chão,
uma estrela preta.
Astro de brilho atrofiado,
seus relevos alternam entre
o liso e o áspero,
qual certos minerais

Protagonista de minha vista,
aquela ferida na experiência
turva todo o em torno

Que ventre escroto
expeliu aquele
floco escuro,
foco do nojo,
concentrado!

Vida sem carne,
coração do lixo,
é força que pulsa
dos escombros e no
avesso das paisagens:

desloca-se com gozo por entre o que se descarta

Seco, tipo palha,
esse fruto desbotado
de uma natureza fria
(cantada pelos
poetas do esquecido)
não é mais que um ponto
- sujo -
na iminência de explodir
não pelos gases da química
ou paradoxos da lógica
mas pelo fortuito encontro
com a sola dura

Brancamole substância há de escorrer
do então embrulho de mistura do
que por enquanto ainda é
asa, antena, pata

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Fantasma de Plástico

Fixado à pose, imobilizado pela matéria dura, preso ao instante como fantasmas de fotografia, cativo de uma sensualidade a que serve como suporte, Manequim! Algo do desejo o sutil olhar de seus olhos ocos exprime.

Não estando à venda, o que de você resta quando te compram o que vende? Possui alguma nudez? Ou está vestido da rígida matéria lisa se é o ar de dentro, substância lacrada, escurecida pela noite do fechado?

Com a profundidade de sua superfície, na coincidência fantástica do plástico morto com o mais vivo que a sua forma traduz – aquém das estátuas mas além dos homens que replicam a si –, agita em quem te vê isso que não se sabe.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Orelha

Curvas sinuosas,
complexos caminhos
ao fim dos quais o
labirinto. Percorre
tal trajeto um não-
sei-o-que a um
instante de se
tornar som.

Com o acréscimo de
um ponto de metal
na ponta, um brilho
cobre de erótico
a fina pele de onde
brota, como grama,
leve penugem.

Perfeita obra de
engenharia revelam
o arredondado de
um dos lados e o plano
do verso. Projeto de
asa, esta aba de
cartilagem por pouco
não fez das cabeças
entes alados.

O pano

A noite sopra éter no pano
pendurado lá fora mergulhado
em silêncio de surdo. Bandeira
de nada, manto de ninguém,
é mortalha oca mas não vazia.
Nos corredores de suas dobras
percorrem as esperanças
sobradas enquanto
sepultadas com ele no
firmamento, aquele trapo
puído, caído e já sem balanço,
pingado, esquecido sabe-se
lá de que imemoráveis festins.

Peso

Como pesam os meus dedos!
Seus esforços de arrancar do
nylon o imaterial são antes
os de vencer a própria inércia.
Mas como eles pesam!
A rústica madeira curvou-se
à exigência da forma e
todas as sonatas são agora
possíveis. Só faltam os meus
dedos, que pesam, que doem,
que mais se arrastam do que
deslizam no instrumento
pelo atrito da áspera pele
da ponta das falanges
dos dedos da mão
do braço ligado a
um grosso tronco
apoiado em pés que
tocam o planeta grave.
Estes meus dedos, como vencê-los
na desproporcional luta por
fazer sair do pesado corpo bronco
o suave que afina o leve espírito?

Poema do aeroporto

Entre terminais não durmo
a quantidade de horas. Ainda
que tudo se mova, nada se
passa. O súbito desarranjo
no tempo fez do que havia
mero acúmulo. Com a duração
descompassada, o montante
despropositado e mudo atrás
do que nada há a si se mostrava:
espesso e sem transparência, do
que bloqueia a minha visão senão
de coisa nenhuma? Sem medida
que diferencie os minutos das horas,
num eterno "ainda não" mordo
os lábios para não desaparecer.