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quarta-feira, 31 de março de 2021

Carnaval, política e medo

O espírito subversivo do carnaval se deve ao fato de esta ser uma festa oferecida do povo para si mesmo. O que é vivido durante aquele curto período de tempo não passa pelas autoridades. Meio autêntico de o povo se divertir, certamente, mas sobretudo expurgo de um sentimento latente sob as cinzas da cultura dos povos. A realidade avessada faz dos poderes estabelecidos alvo de escárnios. Semelhante experiência de uma realidade estranhamente invertida é algo excepcional mas que ocorre de tempos em tempos. Mas como seria se o carnaval adquirisse centralidade na consciência dos homens? Ora, não é difícil perceber que é exatamente isto o que ocorre com o advento das redes sociais e das novas tecnologias digitais. Isto explica, em parte, a popularidade (inimaginável nos tempos anteriores ao da era digital e algorítmica) de algumas figuras, especialmente aquelas que se tornam memes. E o efeito disso no campo político não poderia ser diferente. O carnaval tornou-se o paradigma da vida política. Não é à toa que, nos atuais tempos das redes, aqueles homens públicos que “dizem tudo” gozam do status de celebridade. As gafes que comentem e as bobagens que dizem são vistas, antes de tudo, como qualidades humanas, prova de autenticidade e, principalmente, de liberdade (valor absoluto que dizem defender). A imagem de “gente como a gente” com a qual eles se apresentam é uma verdadeira caricatura do homem do povo. E o linguajar que utilizam, e que rebaixa todo o debate público, tanto os distancia da “elite” inimiga quanto mostra que eles não têm o “rabo preso” com o establishment contra o qual afirmam lutar heroicamente. Mas tais “homens do povo” são alçados a posições de destaque na estrutura de poder por meio de mecanismos que eles próprios ignoram e em relação aos quais eles não passam de fantoches. Por trás das aparências desse carnaval populista há o trabalho não só de ideólogos mas de especialistas em Big Data. Na busca pela atenção dos usuários e alimentadas por likes, as redes sociais, através dos algoritmos, acabam por dar maiores destaques àqueles conteúdos que geram maior engajamento. E nessa ânsia das redes por atenção, likes e engajamento, o medo é o afeto chave por sua capacidade mesma de mobilização, do que resulta uma maior facilidade de circulação das fake news e das teorias conspiratórias. Medo, fake news e teorias das conspiração são os lados de um mesmo fator de coesão.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

A linguagem, a verdade, a consciência e o medo

É suposto que a linguagem seja o meio de conhecimento do que se considera poder conhecer. Para isso, ao tornar-se conceito teve a linguagem que se esquecer de sua origem metafórica. Conhecer é um processo, como disse Nietzsche, de “igualação do não igual”, de redução do múltiplo, de abandono e desconsideração das diferenças que fazem do que é individual o indivíduo que se é. E qual é o custo disto? Um empobrecimento da experiência. Sendo metafórica a verdadeira natureza da linguagem, originalmente ela não empobrecia o que quer que tocasse por preservar o valor de individualidade do que é singular. Ou, melhor dizendo, talvez ela não tocasse em nada além de si própria. Mas eis o grande engodo em que se enredou: transformada em conceito, quer sair de si para chegar às coisas e dizê-las como elas são. É deste esquecimento de sua origem que resulta o sentimento da verdade, processo no qual quem perde é a vida.

Frio e abstrato, o conceito faz a mediação da relação do homem com o mundo, padronizando, a partir de uma espécie de regra do bom senso, as impressões que este homem tem. Soará delirante toda impressão que não possa ser universalisada, isto é, que não possa ser reconhecida, integrada a um quadro geral e comum assegurado pelos “homens”. Não é dificil enxergar que por trás dessa vontade de conhecimento há uma outra vontade, a de estabelecimento de vínculos para fazer do outro o seu próximo, a necessidade de uma vida em rebanho para que desapareça o perigo de morte que um homem representa para outro homem. Dito isto, quem poderia ser o mentiroso se não aquele que rompe com o poder que separa o falso do verdadeiro? Não existe figura de maior risco do que este que não consente com a verdade. Nocivo àqueles que aceitaram a legislação da linguagem, o mentiroso é quem engendra prejuízos sem medida à vida em rebanho.

A linguagem enquanto conceito é comunicação. Comunicar é a ação de "tornar comum". E toda comunicação, em última instância, é mando de um e obediência de outro. É nestes homens que nasce a consciência, sobretudo nos que obedecem. Estar dotado de consciência é estar alienado ao outro, ser regido por seus comandos de ordem. Da necessidade do vínculo nasce a consciência. O homem consciente precisa sentir-se protegido. Sob a consciência, então, existe o medo. Rasa, ela só é capaz de reter para si quase nada do que se passa, ela é um “dar-se conta” disso ou daquilo, mas sempre de uma mínima parte e a mais superficial do que se passa nesta ovelha branca. A consciência não é o mesmo que pensar e é como uma doença.