Há algo de falso na “vida interior”. Espécie de abrigo para certos "inconvenientes" da vida social a que nos submetemos, a vida interior, com toda a sua "riqueza", é como um biombo que nos afasta da realidade daquilo que somos, sobretudo nas considerações íntimas, nas variadas maneiras de se referir a si, pois se fundam sobre uma cegueira quanto a verdade daquilo que se é. Narciso é o maior dos iludidos. Por isso é preciso escapar do perigoso vício da profundidade e reconhecer que somos aquilo mesmo que aparentamos ser, que as nossas aparências revelam de nós mais do que gostaríamos de admitir: a nossa transparência nos denuncia. Portanto, não é "do lado de dentro" mas "do lado de fora" que está a verdade. O que “lá dentro” de nós nos contamos que somos é apenas o que pensamos ser. Há verdade nas aparências e não na interioridade dos nossos discursos mais íntimos, nosso "monólogo interior". O efeito dessa duplicação entre o que interiormente se pensa ser e a forma pela qual se dá o reconhecimento por parte do outro não passa de artimanha de afastamento da verdade de um desejo que já se realiza no dia a dia. Os doces recantos da vida interior, os projetos grandiosos, os sonhos mais íntimos, tudo isso não é outra coisa que o esforço de nos refugiarmos de nossa própria pequenez. É vã toda tentativa de se decifrar com palavras, narrar-se “internamente”, contar para si acerca de si. Tagarela e barulhenta, a consciência é uma das vozes da loucura no silêncio da cabeça de cada um, voz regida sabe-se lá por que forças e que jamais irá se calar. A esse respeito, Žižek diz que
Nossa experiência mais elementar de subjetividade é a "riqueza da minha vida interior": é isso que "realmente sou", em contraste com as determinações e responsabilidades simbólicas que assumo na vida pública (pai, professor etc.). Aqui, a primeira lição da psicanálise é que essa "riqueza da vida interior" é fundamentalmente falsa: é um biombo, uma distância falsa, cuja função, por assim dizer, é salvar as aparências, tornar palpável (acessível a meu narcisismo imaginário) minha verdadeira identidade simbólico-social. Assim, um dos modos de praticar a crítica à ideologia é inventar estratégias para desmascarar a hipocrisia da "vida interior" e suas emoções "sinceras". A experiência que temos de nossa vida por dentro, a história sobre nós que contamos a nós mesmos para explicar o que fazemos é mentira; a verdade está, antes de tudo, do lado de fora, naquilo que fazemos. (...) As "histórias sobre nós que contamos a nós mesmos" servem para confundir a verdadeira dimensão ética de nossos atos. (Slavoj Žižek, Primeiro como tragédia, depois como farsa, P. 44)
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sexta-feira, 13 de julho de 2018
sábado, 18 de julho de 2009
Elogio da idéia de superfície
COM ESTES ídolos antigos que perduram até os nossos dias por meio de rituais dos mais variados que os atualizam, dificilmente poderíamos esperar uma valorização da superfície, do que é superficial. Com estes pilares de sustentação, sofremos a exigência do aprofundamento e sonhamos a leveza do raso. E como sair do primeiro em direção ao segundo? Na literatura esta impotência foi destacada por Michel Tournier. O trecho de seu livro selecionado hoje consiste justamente num elogio à superfície. O nosso vício na profundidade desencadeia em nós certas preferências cuja libertação teria implicações naquilo que somos. Preferências do tipo do entendimento em detrimento ao sensível, da verdade oculta em detrimento às impressões aparentes, do eterno em detrimento ao provisório, do sentido das palavras ditas em detrimento à voz de quem fala, saber quem está comigo em detrimento a um bom momento compartilhado, do sexo em detrimento ao corpo e pele. À luz destas considerações, filósofos de certas escolas, religiosos, maus amantes e canalhas não distinguem de natureza.
“(...) a noção de profundidade, de que nunca até agora pensara em estudar o uso que se faz em expressões como ‘um espírito profundo’, ou ‘um amor profundo’... Estranha prevenção essa que valoriza cegamente a profundidade à custa da superfície e que faz com que o ‘superficial’ signifique não ‘de vasta dimensão’, mas sim de ‘pouca profundidade’, enquanto ‘profundo’ significa, pelo contrário, ‘de grande profundidade’ e não de ‘fraca superfície’. E, no entanto, um sentimento como o amor mede-se bem melhor – caso possa ser medido – pela importância da sua superfície do que pelo seu grau de profundidade. Porque eu meço o meu amor por uma mulher pelo fato de que eu amo igualmente as suas mãos, os seus olhos, a maneira como anda, a roupa que usa, os seus objetos familiares, aqueles que a sua mão aflorou, as paisagens onde a vi evoluir, o mar onde se banhou... Tudo isso é bem a superfície, parece-me! Enquanto um sentimento medíocre visa diretamente, em profundidade, o próprio sexo e deixa tudo o mais numa penumbra indiferente.” (Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico - Michel Tournier)
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