Mostrando postagens com marcador Augusto dos Anjos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Augusto dos Anjos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de junho de 2021

A indiferença das coisas

Dois curtos e bastante curiosos trechos em que lemos um drama: a solidão acentuada pela indiferença de objetos inertes. O cenário de ambos é a casa, lugar tornado estranho pelo seu aspecto morto na noite do olhar de quem padece por existir. Angústia e tédio são os dois nomes desse sofrimento diante do vazio. Um trecho se encontra em Madame Bovary, obra de Gustave Flaubert, e começa da seguinte maneira: “Os móveis (...) pareciam ainda mais imóveis”. O outro no Poema Negro de Augusto dos Anjos: “E a impassibilidade da mobília”. Passagem, portanto, do aconchego do lar para a frieza daquilo que é morto no seio mesmo de seu único refúgio contra o mundo, equivocadamente considerado como o “lado de fora”. E nesta fúnebre atmosfera que personagens sofrem o peso do vagar lento do tempo.

“Os móveis, em seus lugares, pareciam ainda mais imóveis e perdiam-se na sombra como num oceano tenebroso. A lareira estava apagada, o relógio continuava a bater e Emma sentia-se vagamente espantada com aquela calma das coisas enquanto nela mesma havia perturbação.”
(Gustave Flaubert, Madame Bovary, p. 149, 150)

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.
(Augusto dos Anjos, Poema Negro)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Posturas diante do nada

NO DIA 1º de março do ano passado postei neste blog um texto cujo título era "Imobilidade e indiferença do que já é morto" (link do texto). A motivação para trazê-lo à luz foi a recorrência de descrições de certas cenas em autores de diferentes nacionalidades e estilos. Gustave Flaubert e Augusto dos Anjos nos mostram o estranho no interior mesmo da casa, fazendo do espaço íntimo do lar algo ameaçador, hostil como o "lado de fora": numa imobilidade atordoante seus objetos se revelam indiferentes à dor de quem é vivo. Em O espelho, conto de Machado de Assis, há também essa espécie de revolta das coisas da casa em relação àquele que nela habita: contra o homem da consciência, o relógio da sala de movimento automático explana o vazio. A sua pêndula, de marcadora da hora à anunciadora de um mal que corroe, ao "piparote contínuo da eternidade"; o "diálogo do abismo"; "cochicho do nada". Resulta disso a mortificação de um homem entregue à solidão: "defunto andando, (...) boneco mecânico". A saída para o mal que o subtrai por dentro, para o silêncio que dissolve a fronteira imaginária que separa e distingue o interior do exterior, o dentro e o fora, o eu e as coisas, foi a criação de um duplo. A presença de sua imagem refletida com a vestimenta de sua profissão de Alferes mais do que lhe oferecer conforto torna-o imune à loucura para onde a atmosfera de silêncio e a mudez das coisas o arrastavam.
       Relendo a primeira parte de Em busca do tempo perdido pude encontrar um trecho semelhante aos de Flaubert, Augusto dos Anjos e Machado de Assis. Diferentemente deles, Proust parece saborear a oquidão de seu quarto na madrugada. Longe de ver nos objetos inanimados o seu contraponto morto, à insensibilidades deles o personagem se entrega, gozando do privilégio da indiferença.

"Tornava a adormecer, e às vezes não despertava senão por um breve instante, mas o suficiente para ouvir os estalidos orgânicos das madeiras, para abrir os olhos e fixar no caleidoscópio da escuridão e saborear, graças a um lampejo momentâneo de consciência, o sono em que estavam mergulhados os móveis, o quarto, aquele todo do qual eu não era mais que uma parte mínima e em cuja insensibilidade logo tornava a integrar-me."
(Marcel Proust, No Caminho de Swann, Pp. 21)

sábado, 8 de agosto de 2009

O lamento das coisas

Em O Lamento das Coisas, de Augusto dos Anjos, o poeta se coloca à escuta de tudo o que não é aproveitado, de tudo o que se perde. E dessa “energia” desperdiçada ouve-se um choro. Vidas que se perdem pelo fato mesmo de nascerem, riquezas que somem na promiscuidade esplêndida das moléculas: bem ou mal aproveitados os talentos, a natureza é indiferente a qualquer um deles. Em outro lugar, refere-se à natureza como “Semeadora de defuntos”. Não seriam os seus versos o "lamento" de quem ou do que irá se perder para nunca mais? De um ateísmo mórbido, são com os sagrados termos das ciências que os Anjos de Augusto fazem as suas preces. A religião profana que congrega tem em seu livro santo o Apocalipse no lugar do livro de Gênesis.


O lamento das coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada
— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!