domingo, 14 de junho de 2020

Vontade que ultrapassa

As cartas trocadas entre Adrian Leverkuhn e seu mestre, sr. Wendell Kretzschmar, são um interessante testemunho do que poderia parecer uma tomada de decisão como resolução de um impasse: que carreira seguir, a de teólogo ou a de compositor? Mas se é o destino que faz alguns nascerem para um determinado ofício, ou, o que dá no mesmo, se é tal ofício que reclama por aqueles que não podem se "dar ao luxo" da escolha, a trajetória que seguem não é algo que poderia caber em deliberações. Não pertence - no sentido de propriedade - a Adrian o desejo pela música e se tornar compositor. Isto que o move é onde está mergulhado, ao mesmo tempo que é dele que esse movimento que o ultrapassa necessita para se atualizar.

"A arte progride e o faz por intermédio da personalidade, que é produto e instrumento da época, e na qual fatores objetivos e subjetivos ligam-se, até se tornarem indistinguíveis, assumindo uns a forma de outros. Devido à necessidade vital que a arte tem do progresso revolucionário e da realização do renovamento, depende ela do veículo do mais intenso sentimento subjetivo, que acha chochos, inexpressivos e obsoletos os recursos ainda corriqueiros e se serve daquilo que aparentemente não é vital, a saber, da predisposição pessoal para a lassitude, do fastio intelectual, do asco que acomete a quem perceba o 'segredo do feitio', da maldita inclinação de ver as coisas à luz da sua própria paródia, do 'senso cômico'. Repito: o desejo de vida e progresso, inerente à arte, põe a máscara dessas tíbias qualidades pessoais para assim manifestar-se, objetivar-se, cumprir-se." (Doutor Fausto, p. 159)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A música, a genialidade e o diabo

É inegável a íntima relação entre o filme Amadeus e o livro Doutor Fausto. Milos Forman certamente recorreu à obra de Thomas Mann quando planejou o filme. Tanto neste quanto no livro, além de sermos conduzidos para a "questão musical", há um personagem que narra e outro dotado de uma genialidade misteriosa e intrigante. A extraordinária capacidade de engendrar inusitadas articulações sonoras, comum a Mozart e a Adrian Leverkuhn, é o tema dessas duas obras. Em Amadeus, a dimensão vulgar e obscena de Mozart que suas risadas nos deixam perceber contrasta com o seu talento, como se toda a sua nobreza estivesse em outro lugar. Quanto a Adrian, um interiorano, é nas esferas estelares de sua prodigiosa imaginação onde ele recolhe os elementos para as suas composições. Salieri, o narrador do filme, também é músico, ao passo que Serenus, narrador de Doutor Fausto, não. Mas são esses dois que melhor fornecem o modelo que nos permite compreender, não simplesmente uma profunda admiração, mas o que seria um amor por aqueles em quem se identifica uma qualidade rara. A inveja que Salieri sentia de Mozart, por exemplo, é um claro sinal do seu reconhecimento de que aquele artista era a encarnação da plenitude divina. A inveja é uma forma avessada de amor. Salieri e Adrian buscavam a composição na qual a perfeição pudesse transparecer. Mozart, não. Foi a Música que encontrou a sensibilidade daquele homem para, através daquelas mãos, dar-se a si própria a forma sublime. A música ainda em estado latente parecia ditar a Mozart como ela deveria ser vertida em movimentos sonoros. Salieri, como Adrian, fez o pacto. Em troca da excelência no campo das artes do som abriu ele mão do sexo. Mas se não foi bem sucedido em sua empreitada talvez tenha sido porque o celibato não fora o bastante. Colheu não mais que a fama entre os homens e nenhuma de suas obras lhe permitiu que seu nome ocupasse sequer uma página nos livros onde só os imortais têm lugar. Adrian, ao contrário, embora também tenha feito o pacto, em troca da capacidade de sentir amor obteve a verdadeira glória, a que lhe conferiu um registro na eternidade própria aos grandes mestres. Ora, a boa e a troca são determinantes da qualidade do pacto, e se um fracassou lá onde o outro obteve sucesso, isso se deveu ao fato de que um fez negócio com Deus, ao abrir mão do sexo, enquanto que o outro, com o diabo ao abrir mão do amor.