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Reclamam do fato de os episódios do desenho Papa-Léguas serem todos iguais. Mas não poderia ser de outra forma, uma vez que aquilo que o coiote persegue, o Papa Léguas, é em si mesmo inatingível. Por que? Um tem mais velocidade que o outro quando se perseguem? Tal resposta não é boa e não dá conta do que realmente acontece. Na verdade, o Papa-Léguas não existe senão na cabeça do coiote que o caça. E essa interpretação não é absolutamente aleatória. Percebe-se isso numa das mais comuns armadilhas contra o Papa-Léguas, a do desenho de um túnel feito na pedra pelo próprio coiote. Quando o Papa-Léguas segue a estrada a toda velocidade e entra no túnel esperávamos que ele se chocasse contra a pedra em que o túnel fora desenhado. Mas isso não ocorre. O Papa-Léguas atravessando o falso túnel na pedra revela que ele é regido apenas pelas leis daquele cenário e daquela simulação de realidade. Quando o coiote tenta fazer o mesmo esse sim se depara com a dureza da pedra, pois as leis da natureza a que está necessariamente submetido (por exemplo, que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço) não são as mesmas do Papa-Léguas. Se o coiote imaginou um túnel quando o desenhou na pedra, o Papa-Léguas enquanto um ser igualmente fruto de sua imaginação – ou melhor, de seu delírio – é plenamente capaz de atravessá-lo. O desenho na pedra e o bicho perseguido são feitos da mesma "matéria", por isso se interagem. O programa Papa-Léguas diz respeito, portanto, a um animal solitário que delira no meio do nada, um coiote que persegue algo criado por sua loucura num deserto, num lugar vazio. Há nisso alguma lição? O que na nossa vida diária encarna o Papa-Léguas e nos motiva a levantar todos os dias? Dinheiro, mulher, felicidade...? Acreditar que essas coisas existem de fato e que devemos correr atrás delas isso só nos leva a dar com a cara contra a pedra, como acontece sempre com o coiote.
Logo abaixo uma seqüência que ilustra bem a ideia central do desenho:
NA COLETÂNEA Freud e o Estranho, Contos fantásticos do Inconsciente, há um do escritor inglês Hugh Walpole em que lemos acerca de um caso contrário aos que já haviam sido expostos neste blog que tratam do tema da imobilidade das coisas contrastando com a interioridade viva do homem em angústia. Em autores como Proust, Augusto dos Anjos, Flaubert e Machado de Assis foram colhidos trechos que exemplificam desse descompasso entre o que se passa fora do sujeito e o que se passa dentro dele, como que o lado de fora se revela desértico, frio, seco, mudo, morto, indiferente às dores daquele dotado de uma interioridade pulsante. (Links dos textos citados: 1 | 2 | 3 ) No conto de Walpole ocorre algo de outra ordem. Havia uma máscara na parede da casa da personagem de nome Sônia Herries. Esta é vítima de um golpe que só se concretiza em razão de um consentimento secreto seu com ele. É justamente esta máscara (que testemunha) que dá nome ao conto. Portanto, o conto A mascara de prata nos mostra a estória de uma senhora que cede a impulsos de bondade materna ao ajudar alguém de má fé. E ela perde tudo, inclusive as suas forças mais vitais, restando somente um quartinho em cuja parede mal forrada com papel manchado fora pendurada a máscara de prata para que ambas se olhassem mutuamente. Neste pequeno espaço que lhe sobra, a máscara oferecida pelo seu malfeitor serve como suvenir da época em que as coisas que possuía ainda pertenciam a ela. À medida que acompanhamos os fatos narrados, nós leitores junto com a vítima protagonista vamos aos poucos percebendo o que está prestes a acontecer. Junto à clareza que a situação vai ganhando a máscara de prata muda de feição. Eis uma primeira diferença entre aqueles textos nos quais o que acentua a dor é a indiferença dos objetos e este em que na própria impressão que ela tem da máscara é revelado algo mais do que está no próprio objeto. O enfeite, então, não é absolutamente impassível à dor que ela sente de ser invadida, à dor da perda de seu lar para estranhos. Muito pelo contrário, a máscara zomba dela, debocha de sua fraqueza, caçoa de seus atos cometidos ao mesmo tempo voluntária e involuntariamente. Seria uma falsa questão se perguntar se a mascara ri mesmo ou se é na protagonista que as expressões daquele rosto duro se produzem à medida que própria dureza da prata de que é feita a máscara cede imaginativamente às feições que correspondem à consciência que a protagonista (e nós leitores) progressivamente vai tendo do mal que sonda mas em relação ao qual se vê impotente de se livrar porque consente com ele. É disso que a máscara ri – da passividade de Sônia Herries, do automatismo de suas atitudes, de sua falta de autonomia porque se deixa levar por uma espéice de bondade materna, do quanto ela mesma não pertence si própria. Em suma, a máscara ri do quanto ela se aproxima da condição de objeto, ri do quanto ela se assemelha à mascara mesma.
Pois bem, vamos às fazes da máscara ao longo do conto:
"Uma máscara de prata representando o rosto de um palhaço, um palhaço sorridente, maroto, alegre, sem nenhuma sombra daquela tristeza que tradicionalmente se atribui aos palhaços."
"(...) ao olhar através do aposento para a parede de tom claro em que a máscara de prata estava pendurada. Pensou que havia algo da aparência do rapaz naquela superfície brilhante. Mas onde? As bochechas do palhaço eram gorduchas, sua boca larga, seus lábios grossos... e no entanto... no entanto..."
"Ela notou que a máscara de prata estava mudando aos poucos. As feições rechonchudas estavam ficando afiladas, havia uma nova luz brilhando nas órbitas vazias. Era mesmo uma obra belíssima."
"Houve um momento em que Sônia Herries, erguendo os olhos até a máscara de prata, teve um sobressalto ante o sorriso que viu na boca do palhaço. Era um sorriso apertado, sarcástico, quase de zombaria."