sábado, 29 de março de 2025
Os mortos-vivos e suas lições
sexta-feira, 28 de março de 2025
O chope e o mundo
O jornalista Pedro Doria disse ontem, no seu Ponto de Partida (canal Meio), que “a conversa sobre política precisa voltar a ser um papo entre amigos que discordam, riem, erguem o copo de chope e voltam a conversar.” O problema de tal afirmação não seria a pouca (ou talvez nenhuma) possibilidade de isso voltar a acontecer. O problema é que o assunto “política” não simplesmente se encontra no hall dos assuntos possíveis, ao lado daqueles sobre futebol, música, novela, etc.
O filme Rashômon (1950), de Akira Kurosawa, nos mostra que o buraco é bem mais em baixo. De que trata o filme? Ao assisti-lo, acompanhamos quatro narrativas a respeito de um evento: um ladrão avista um casal numa estrada e, tendo desejado a mulher, segue-o, faz uma emboscada e amarra o marido para possuir sexualmente a sua esposa. Ao término da cópula, ambos os homens duelam e o corpo do marido é encontrado morto mais tarde. Ora, essa cena é descrita pelos três personagens envolvidos e por um quarto homem que assiste a tudo mas a partir de “fora” por se encontrar escondido na mata.
O primeiro a dar a sua versão é o ladrão, que afirma ter realizado um duelo justo imediatamente após o ato sexual consentido, duelo no qual ele mata o marido da mulher. A mulher é a segunda a dar a sua versão, na qual é ela quem mata o próprio marido por não suportar a vergonha encarnada no olhar que ele lança sobre ela após a consumação do ato sexual com o ladrão. A terceira versão é a do marido morto. De acordo com a narrativa de seu fantasma, não suportando a humilhação por que passou, é ele quem tira a própria vida com o punhal. E há o quarto relato, o do homem que não participou da cena mas que viu tudo “de fora”, relato no qual a mulher acusa a ambos os homens de serem fracos e pouco viris, instigando-os a lutarem entre si até a morte se quiserem “tê-la” como esposa.
O fato como realmente ocorreu foi “melhor” visto (logo, melhor contado) por este quarto personagem do que pelos demais justamente por não ter a sua perspectiva “afetada” pela parcialidade própria daqueles que participaram da cena, isto é, que se encontravam “dentro” da cena? Logo, podemos falar de uma impossibilidade estrutural das narrativas em reproduzirem a realidade proferidas por aqueles que estão “dentro” da cena? Em outros termos, estaria o “todo” da cena inacessível àqueles que participam dela, em compensação acessível a quem estaria “fora” dela?
E se a verdade deste episódio se encontra além de toda interpretação, sendo mera fantasia qualquer ideia de uma posição externa a partir da qual seria possível ver as coisas como realmente são? O filme nos coloca diante de diferentes versões. Mas a nossa questão é a seguinte: cada narrativa do ocorrido não reflete simplesmente diferentes percepções que poderiam ser conciliadas pela verdade do fato. E não se trata, aqui, nem de um relativismo (não há realidade, mas apenas versões e narrativas), tampouco de um dogmatismo (há uma realidade verdadeira, logo, só pode haver uma versão “adequada”), mas a compreensão de que toda narrativa é uma tentativa de encobrimento de um núcleo traumático. (No caso do filme, o núcleo traumático encoberto pelas diferentes versões é o progressivo enfraquecimento da autoridade masculina através da afirmação do desejo feminino.)
Mas o que tudo isso tem a ver com a otimista afirmação do jornalista Pedro Doria e seu desejo de que retomemos “a conversa sobre política”, que, mesmo discordando, possamos rir novamente, erguer “o copo de chope” e voltar “a conversar”? O começo de Rashômon faz a síntese: homens conversam a respeito de algo que é mais terrível que a fome e a guerra. O que poderia ser isto? Ora, é a ordem simbólica que se encontra em vias de desintegração, aquela na qual não apenas todo pacto social se sustenta, mas também a que permite o compartilhamento de experiências. O que a existência de quatro versões não conciliáveis acerca de um evento revela é precisamente isto: não vemos (experimentamos) mais as mesmas coisas; os "fatos" estão perdidos. Eis, portanto, o nosso drama, o ponto traumático hoje: não há mais uma experiência comum. Se formos sentar para conversar, certamente não será para beber chope, mas para pensar a dissolução de nossos pactos. O pacto do “chope” não segura um mundo em desintegração.