quinta-feira, 14 de junho de 2018

Ver

Não pinto, não desenho,
posto que, como acreditam
os cegos no que tocam,
acredito eu no que vejo:
a solidez das coisas
me constrange de
fazer rabiscos,
traçar formas,
duplicar em semelhanças.
Não ousaria um tal sacrilégio.
Reproduzir é reduzir à miragem.
O que sobrevive à sua própria imagem?
De meus olhos dogmáticos me
resta o jogo de deslocar palavras,
que sei não serem coisas mas posições.
E se as mudo de lugar é
porque não as levo a sério.
Como figuras, brincando de montar
sentenças vejo no que dá para,
assim, alcançar algum princípio
de desmanche de todo o visto;
o antes maciço não redunda
em ilusão, mas se multiplicam
as suas camadas, que são,
antes, etapas de mim.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Em si

Um instante acontece sem
tecido algum preexistente a ele;
nenhum espaço, mínimo que seja,
subjaz às coisas antes
de serem elas coisas.
É sobre um fundo de nada
que o que existe se desdobra,
pois não tem do mundo um “fora”
e só o que há, há.
Metamorfósica,
sem forma última
ou primeira,
em fluxo por um ralo
sem o outro lado,
de si para si mesma
a vida escoa
sem porquê.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Breve comentário sobre a Filosofia da Diferença

A filosofia conhece dois modelos de pensamento: o da identidade, inventado por Platão, e o da diferença, levado às últimas consequências por Nietzsche. Mas não se trata de uma mera oposição, pois privilegiou-se um dos termos em detrimento do outro. No ocidente predominou (e predomina) o pensamento da identidade. Em poucas palavras, ele se funda num apego à representação, ao mesmo, ao que é semelhante, o que significa dizer que está referido à noção de um modelo ou ideia, isto é, a um critério eterno (transcendente) que permitiria avaliar aquilo que não é essencial e apontar para o que é simplesmente imagem. O nome dessa imagem destituída de semelhança é simulacro. Há um claro exemplo disso na teologia cristã: Deus fez o homem a sua imagem e semelhança; o pecado é o que retiraria desse homem a sua semelhança com Deus, fazendo dele apenas imagem. À luz do pecado, todo homem é um simulacro. O homem religioso é aquele que se reconhece como cópia sem semelhança, sem identidade com a ideia, simulacro.
O pensamento da identidade promete a este homem a garantia de que as tranformações que percebe nas coisas não prejudiquem aquilo que elas são em essência; que no movimento o idêntico se conserve para que os objetos possam ser identificáveis; que “eu” sempre seja a mesma pessoa em todos os momentos do tempo. A finalidade do pensamento da identidade é a estabilidade de um mundo, reconhecível nas suas mais variadas formas. Então, que toda e qualquer consideração original que se tenha da vida seja posta de lado.
A filosofia da diferença, em primeiro lugar, é crítica à oposição entre identidade e diferença, do primado dado pelo ocidente à identidade. Denuncia que tal privilégio só ocorre por uma razão prática e uma questão de segurança, que reconhecer o que tem de idêntico no que é diferente não é mais que pura conveniência - a lógica da repetição é artificiosa, convencional, e sua razão de ser é orientar nossa relação com as coisas e o mundo.
Posto que seu objeto não é dado de antemão à espera de ser explicitado pelo filósofo, não cabe à filosofia da diferença reconhecer ou desvelar, tampouco pode ser ela reduzida à função de comentar, de refletir sobre o que for, como fazem os saberes metalinguísticos. Se a filosofia da diferença nem descobre ou comenta, o que ela faz é criar conceitos e os relacionar, isto é, faz nascer o novo, faz aparecer aquilo que não existia. A filosofia é uma teia de relações conceituais inventada.
Portanto, escapar do pensamento que violentamente subordina a diferença à identidade é arriscar deslocar-se no espaço do pensamento sem imagem, “lugar” da diferença. A realidade da diferença só é liberada se se rompe com o conforto do espaço da imagem do pensamento (aquele da representação), dogmático, metafísico, moral, racional, transcendente. O outro espaço, o do pensamento sem imagem, ao contrário, é pluralista, ontológico, ético, trágico, imanente.
Afirmar a diferença é afirmar o singular.




domingo, 26 de novembro de 2017

Estátua na sala

Antes de os bisavós de
hoje nascerem, a estátua
já possuía forma, existia.
E aos bisnetos dos filhos
daquelas com as quais
cruzarei amanhã, sobreviverá
a pequena peça, que agora na sala
se destaca por sua empáfia.
De seu lugar mostra-se
gasta, mas é só aparência.
Coisa opaca, tem a solidez
calma de um ponto fixo.
A casa passará, os móveis
são menos que geleias
ou cera ao sol.
Em revanche aquilo
dura em permanência
indefinida: sustentará,
firme, a forma mais que
todo vivo sem dureza.
Peça quase absoluta,
é impassível ao drama do
fim a que toda carne que
estraga está entregue,
tamanha força é essa
presença perante a
qual tudo é leve, macio...
Nos apertados poros
do seu bronze o tempo
parece não penetrar.
Em confim algum nada
mais material e desprovido
do espírito quanto tão
próximo do que se
poderia chamar de divino.
De meu corpo em delírio,
quente e mole, quase vazado e
desejoso ao limite do que o
leva ao desespero, o
silencio frio do metal
gelado diz no íntimo
que quando toda a terra
secar e não sobrarem
mais que restos disformes do
que um dia foi uma figura
moldada, não haverá memória
alguma em que esteja registrado
tudo o que hoje há.
Aquela estátua-soldado
nunca terá havido, então.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Luas

Por trás das pálpebras,
vê-se luas, como se numa tela.
Com os globos cobertos,
visão obstruída,
o referente de luz
destes astros é o sol,
não o do agora
mas o de instantes
atrás, quando a vista
ainda se expunha.
Na memória da retina,
as marcas-brilho,
luminosidades doces,
luas que diferem da outra,
matéria giratória
presa à forma, o
astro cor-áspera,
quase esquecido
não fossem os astronautas
e alguma dor refletida.

sábado, 23 de setembro de 2017

Certo aprumo

O que não vem pra sala,
isso que não é liberado,
nalgum lugar se instala,
noutra corrente emperrado.

Mesmo não existente,
aporrinha, faz coçar.
Traces no ausente,
pra coisa a rota acertar.

Não pode calhar palavra errada,
pois aquilo se cala mais ainda;
um desvio, perder o fio da meada,
tal antes mesmo de nascer já finda.

Ter no peito um suspiro?
Ou riso insinuado no rosto?
Antes, desembaralhes o delírio,
ames o porvir com sede e gosto.

E que se lance outra verdade
sem precisar ser poliglota.
Quem sabe surjam novas cidades!
Apruma a fala à tua revolta.





terça-feira, 25 de julho de 2017

O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO


1

- Freud levanta a seguinte questão: quais são as possíveis fontes de onde se origina o sentimento de religiosidade? O primeiro sentimento que responderia a essa questão acerca da fonte da religiosidade ele chama de "sentimento oceânico", sentimento que muitos parecem carregar dentro de si. E o que é o sentimento oceânico? Freud diz ser a "sensação de eternidade", o "ser-um com o universo", a sensação de uma "vinculação indissolúvel, de comunhão com todo o mundo exterior". Mas semelhante sentimento constituiria o sinal de um vínculo fundamental com o absoluto ou poderia ser ele submetido à análise que revelaria as suas fontes no aparelho psíquico? Para Freud, tal sentimento oceânico que supostamente explicaria o sentimento de religiosidade não é primário mas provém da conservação, no âmbito psíquico, do que ele chama de "primário sentimento do Eu", sentimento que se caracteriza pela indistinção entre o Eu e o mundo exterior. É através de uma análise do Eu e de seus limites em relação ao não-Eu (isto é, ao de "fora", à realidade externa) que Freud irá diferenciar esse sentimento primário do "sentimento do Eu da época madura". Excetuado alguns casos de patologia, a fronteira entre o interior e o exterior responsável pela "instauração do princípio de realidade" só adquire contornos nítidos nos indivíduos psiquicamente maduros. Todo indivíduo no início de seu processo de maturação passa pelo período em que o Eu e o mundo exterior se confundem. Mas poderia a religiosidade ser explicada por um narcisismo ilimitado remanescente, pelo "sentimento oceânico" que resulta da sobrevivência na vida adulta do "primário sentimento do Eu"? Apesar da longa explanação acerca desse tópico, segundo Freud não é isso o que explica a origem do sentimento de religiosidade. Para ele, o que explica tal fenômeno é o sentimento de "desamparo infantil" que se prolonga na vida adulta, a religião sendo justamente a resposta a uma "nostalgia do pai" que aquele sentimento desperta. O desamparo infantil frente ao poder do destino clama por uma proteção do tipo paternal.


2

- O que os homens esperam da vida? O que desejam alcançar nela ou dela eles exigem? Freud, nesse segundo capítulo de O Mal-Estar na Civilização, afirma ser a felicidade. A compreensão de que a felicidade é o que se busca na vida só é possível pela perspectiva do princípio do prazer. Na breve referência que faz à ideia de um sentido da vida, ele diz ser o sistema religioso que estabelece algo desse gênero. Em poucas palavras, não existe um sentido da vida fora de um sistema religioso. E se a religião é uma forma de o homem se iludir, a noção de um sentido da vida não deixa de ser igualmente ilusória. Mas é em relação à felicidade que o homem vive a contradição. Se por um lado não tem como alcançá-la, por outro não pode renunciar à sua busca. O caráter irrealizável do programa da felicidade se dá em razão de uma série de fatores: o nosso corpo fadado ao declínio e à dissolução; a brutalidade das forças destruidoras da natureza que nos abatem; as decepções decorrentes das relações com os outros. (Este último parece ser o mais doloroso de todos.) O outro aspecto do sofrimento é a não resposta aos nossos desejos por parte do mundo, é a recusa do mundo exterior em saciar nossas carências de maneira plena. Uma forma de se livrar desse tipo de sofrimento pode ser através do domínio de nossos desejos, como prega a sabedoria oriental. Mas o que nos leva a moderar as pretensões à felicidade são aquilo que a ameaça. E isso lança um problema: entregar-se incondicionalmente às pulsões, inibi-las completamente ou governa-las? Existe, no entanto, uma quarta possibilidade a que poucos têm acesso, a sublimação, para Freud a "mais fina e elevada" forma, que consiste em deslocar as metas dessas pulsões para atividades socialmente reconhecidas, como as artes e as ciências. Eis como não sucumbir a uma busca desenfreada pelo gozo nem padecer de tédio por falta de. Freud enumera alguns "métodos pelos quais os homens se esforçam em obter a felicidade e manter à distância o sofrer". Entre os paliativos que nos permitem manter afastada a miséria da vida estão as formas de divertimento (que nos distraem), as gratificações substitutivas (como algumas artes que nos iludem face à realidade) e as substâncias inebriantes (que entorpecem o corpo alterando o nosso sentir). Essa lista está longe de esgotar as "técnicas de vida" de afastar, ou ao menos administrar, os sofrimentos. Ao trabalho, ao amor e à fruição da beleza Freud também faz referência como meios para esse fim.


3

- Freud aponta para a difícil relação entre a liberdade e as restrições que a sociedade impõe ao indivíduo. Existe entre elas uma oposição radical ou algum grau de negociação, de equilíbrio, de conciliação é possível? Em poucas palavras, como ser feliz sem romper com as exigências do grupo do qual se faz parte? A sorte da felicidade parece depender de uma resposta a esta pergunta. Das três fontes de onde provém o sofrer mencionadas no capítulo anterior, Freud se aprofunda, aqui, naquela que decorre da dificuldade dos homens de se relacionarem entre si. Será a partir dessa dificuldade que ele compreenderá as causas do fracasso do processo civilizatório. Dessa espécie de sofrimento resulta algo como uma nostalgia de um tempo pré-civilizatório, de um tempo em que ainda se vivia em condições primitivas. Se as relações dentro do quadro fornecido pela civilização nos fazem sofrer o pior sofrimento, os tempos anteriores ao estabelecimento da civilização só poderiam ter sido melhores. A "hostilidade à civilização" e a sua contraparte de um desejo por um retorno (impossível) a um suposto estado de natureza refletem o caráter insuportável que a privação de uma vida em sociedade impõe ao homem civilizado. Mas as exigências da cultura sendo "abolidas ou atenuadas significariam um retorno a possibilidades de felicidade"? O que parece é que na própria constituição psíquica se esconde "um quê da natureza indominável". A civilização é construída sobre a renúncia das pulsões, o que implica que a frustração de desejos não satisfeitos assombra os vínculos sociais. Como ultrapassar esse potencial ódio pelo próximo que toda cultura implica? As conquistas humanas e os progressos sobre a natureza, ao mesmo tempo que foram o meio de o homem não ficar à mercê dos acasos e contingências do mundo exterior e de aumentar a possibilidade de afastamento da infelicidade, tais conquistas e progressos parecem justamente acentuar o mais doloroso sofrer, que é o "sofrimento social", o sofrimento que se tem com a existência do outro. Sem dúvida que tais avanços apartaram um enorme leque de diferentes qualidades de dores, mas esses avanços não se traduziram num maior grau de felicidade. O homem se aproximou de certos "ideais culturais", cada indivíduo se tornou um "deus protético" através das conquistas tecnológicas, mas nem por isso se sentiu mais feliz. Os meios civilizatórios de manter à distância o mal que decorre da difícil relação entre os homens, o conjunto de regras que regulam os vínculos deles entre si, como a justiça e o direito, parece não terem sido suficientes. Mas existe o que Freud chama de sublimação, de que depende toda a evolução da cultura: deslocamento da pulsão, "situar em outras vias as condições de sua satisfação". Eis o que viabiliza atividades mais elevadas, como as ciências e as artes, e confere maior valor à vida: "seríamos tentados a dizer que a sublimação é o destino imposto à pulsão pela civilização."