A consciência é apenas um sonho, embora com os olhos abertos. "É assim que um menino pequeno julga desejar livremente o leite, um jovem em cólera querer a vingança, e o medroso a fuga. Um homem em estado de embriaguês julga também que diz por uma livre decisão da alma aquilo que, fora dessa situação, preferiria ter calado" (DELEUZE, Gilles. Espinoza e os signos. Trad. Abílio Ferreira. Porto: Rés Editora, 1970. p. 29.
Como dissemos, as afecções são o que resulta dos encontros entre os corpos. Mas há duas espécies de encontros. Há os bons encontros e os maus encontros. Os bons encontros se caracterizam pelo aumento da potência do corpo, do que resulta em alegria; ao passo que os maus encontros são aqueles que diminuem a potência do corpo, sendo a tristeza o seu resultado. As potências que tanto podem ser aumentadas ou diminuídas dizem respeito à capacidade de agir e de pensar, respectivamente. Em outros termos, um corpo potente e alegre é o corpo com maior capacidade de agir; uma alma potente é aquela com maior capacidade de pensar. Lembrando que, para Spinoza, corpo e alma são, cada um, os dois modos dos dois atributos da substância, o atributo do espaço e o atributo do pensamento.
Aqui chegamos à questão da atividade que indicamos no primeiro parágrafo desse texto. Ultrapassar o gênero do conhecimento da imaginação tem como primeiro passo o reconhecimento de que liberdade não é escolha, já que esta se encontra determinada pelos afetos. Considerar-se livre porque acredita-se que as escolhas feitas foram absolutamente espontâneas, que não resultam de uma causa fora do corpo que realiza a ação, é ignorar o fato de que o indivíduo enquanto corpo está a mercê dos encontros. Estamos falando aqui de uma passividade de todas as ideias da imaginação. Mas falar de liberdade é falar de atividade; falar de atividade é falar de potência, tanto do corpo quanto da alma.
Disso podemos afirmar que a liberdade enquanto atividade (e não enquanto livre escolha) e a potência própria da atividade como o aumento da capacidade de ação dependem dos encontros. A noção imaginária de livre escolha tem como pressuposto um indivíduo isolado de onde todas as suas ações partiriam espontaneamente; já a noção de atividade, para que ela seja possível os encontros felizes se fazem necessários: liberdade depende do outro com o qual meu corpo se encontra e de cujo encontro posso aumentar a minha potência. Eis porque Spinoza é um autor importante para se pensar a questão da coletividade, já que é dela de onde pode provir a liberdade. Por exemplo, a questão das cidades. O que seria uma boa cidade senão aquela que justamente promove e organiza os melhores encontros entre seus cidadão, encontros que potencializam os que habitam nela? Se potência é a capacidade de agir, produzir só é possível a partir dos bons encontros. Cabe aqui uma última citação de Deleuze a respeito da atividade de organizar os bons encontros como meio de aumento da potência.
Dir-se-á bom (ou livre, ou forte) aquele que se esforça, enquanto persiste em si mesmo, por organizar os encontros, por se unir ao que convém à sua natureza, por compor a sua relação com as relações combináveis, e, através disso, se esforça por aumentar a sua potência. Dir-se-á mau, ou escravo, ou fraco, aquele que vive ao acaso dos encontros, que se contenta em sofrer os efeitos, mesmo quando se lamenta e acusa, sempre que o efeito sofrido se mostra contrário e lhe revela a sua própria fraqueza.
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