domingo, 26 de novembro de 2017

Estátua na sala

Antes de os bisavós de
hoje nascerem, a estátua
já possuía forma, existia.
E aos bisnetos dos filhos
daquelas com as quais
cruzarei amanhã, sobreviverá
a pequena peça, que agora na sala
se destaca por sua empáfia.
De seu lugar mostra-se
gasta, mas é só aparência.
Coisa opaca, tem a solidez
calma de um ponto fixo.
A casa passará, os móveis
são menos que geleias
ou cera ao sol.
Em revanche aquilo
dura em permanência
indefinida: sustentará,
firme, a forma mais que
todo vivo sem dureza.
Peça quase absoluta,
é impassível ao drama do
fim a que toda carne que
estraga está entregue,
tamanha força é essa
presença perante a
qual tudo é leve, macio...
Nos apertados poros
do seu bronze o tempo
parece não penetrar.
Em confim algum nada
mais material e desprovido
do espírito quanto tão
próximo do que se
poderia chamar de divino.
De meu corpo em delírio,
quente e mole, quase vazado e
desejoso ao limite do que o
leva ao desespero, o
silencio frio do metal
gelado diz no íntimo
que quando toda a terra
secar e não sobrarem
mais que restos disformes do
que um dia foi uma figura
moldada, não haverá memória
alguma em que esteja registrado
tudo o que hoje há.
Aquela estátua-soldado
nunca terá havido, então.

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