quinta-feira, 17 de maio de 2018

Breve comentário sobre a Filosofia da Diferença

A filosofia conhece dois modelos de pensamento: o da identidade, inventado por Platão, e o da diferença, levado às últimas consequências por Nietzsche. Mas não se trata de uma mera oposição, pois privilegiou-se um dos termos em detrimento do outro. No ocidente predominou (e predomina) o pensamento da identidade. Em poucas palavras, ele se funda num apego à representação, ao mesmo, ao que é semelhante, o que significa dizer que está referido à noção de um modelo ou ideia, isto é, a um critério eterno (transcendente) que permitiria avaliar aquilo que não é essencial e apontar para o que é simplesmente imagem. O nome dessa imagem destituída de semelhança é simulacro. Há um claro exemplo disso na teologia cristã: Deus fez o homem a sua imagem e semelhança; o pecado é o que retiraria desse homem a sua semelhança com Deus, fazendo dele apenas imagem. À luz do pecado, todo homem é um simulacro. O homem religioso é aquele que se reconhece como cópia sem semelhança, sem identidade com a ideia, simulacro.
O pensamento da identidade promete a este homem a garantia de que as tranformações que percebe nas coisas não prejudiquem aquilo que elas são em essência; que no movimento o idêntico se conserve para que os objetos possam ser identificáveis; que “eu” sempre seja a mesma pessoa em todos os momentos do tempo. A finalidade do pensamento da identidade é a estabilidade de um mundo, reconhecível nas suas mais variadas formas. Então, que toda e qualquer consideração original que se tenha da vida seja posta de lado.
A filosofia da diferença, em primeiro lugar, é crítica à oposição entre identidade e diferença, do primado dado pelo ocidente à identidade. Denuncia que tal privilégio só ocorre por uma razão prática e uma questão de segurança, que reconhecer o que tem de idêntico no que é diferente não é mais que pura conveniência - a lógica da repetição é artificiosa, convencional, e sua razão de ser é orientar nossa relação com as coisas e o mundo.
Posto que seu objeto não é dado de antemão à espera de ser explicitado pelo filósofo, não cabe à filosofia da diferença reconhecer ou desvelar, tampouco pode ser ela reduzida à função de comentar, de refletir sobre o que for, como fazem os saberes metalinguísticos. Se a filosofia da diferença nem descobre ou comenta, o que ela faz é criar conceitos e os relacionar, isto é, faz nascer o novo, faz aparecer aquilo que não existia. A filosofia é uma teia de relações conceituais inventada.
Portanto, escapar do pensamento que violentamente subordina a diferença à identidade é arriscar deslocar-se no espaço do pensamento sem imagem, “lugar” da diferença. A realidade da diferença só é liberada se se rompe com o conforto do espaço da imagem do pensamento (aquele da representação), dogmático, metafísico, moral, racional, transcendente. O outro espaço, o do pensamento sem imagem, ao contrário, é pluralista, ontológico, ético, trágico, imanente.
Afirmar a diferença é afirmar o singular.




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