quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A máscara de prata

NA COLETÂNEA Freud e o Estranho, Contos fantásticos do Inconsciente, há um do escritor inglês Hugh Walpole em que lemos acerca de um caso contrário aos que já haviam sido expostos neste blog que tratam do tema da imobilidade das coisas contrastando com a interioridade viva do homem desesperado. Em autores como Proust, Augusto dos Anjos, Flaubert e Machado de Assis foram colhidos exemplos desse descompasso entre o que se passa fora do sujeito e o que se passa dentro dele, como que o lado de fora se revela desértico, frio, seco, mudo, morto e sobretudo indiferente às dores daquele que possui uma interioridade pulsante em razão da angústia que sente. (Links dos textos citados: 1 | 2 | 3 ) No conto de Walpole ocorre algo de outra ordem. Havia uma máscara na parede da casa da personagem de nome Sônia Herries. Esta é vítima de um golpe que só se concretiza por causa de seu consentimento com ele. É justamente esta máscara que nomeia o conto. Portanto, o conto A mascara de prata nos mostra a estória de uma senhora que cede a impulsos de bondade materna ao ajudar alguém de má fé. É por este motivo que ela perde tudo, inclusive as suas forças mais vitais, restando somente o quartinho onde a empregada dormia em cuja parede mal forrada com um papel manchado fora pendurada a máscara de prata para que ambas se olhassem mutuamente. Neste pequeno espaço que lhe sobra, a máscara oferecida pelo seu malfeitor serve como suvenir da época em que as coisas que possuía ainda pertenciam a ela. À medida que acompanhamos os fatos narrados, nós leitores junto com a vítima protagonista vamos aos poucos percebendo o que está prestes a acontecer. Junto à clareza que a situação vai ganhando a máscara de prata muda de feição. Eis uma primeira diferença entre aqueles textos nos quais o que acentua a dor é a indiferença dos objetos e este em que na visão da imagem do objeto (a máscara) é revelado algo mais do que está nele mesmo. O objeto de enfeite, então, não é absolutamente impassível à dor que ela sente, à dor de ser invadida, à dor da perda de seu lar para estranhos. Muito pelo contrário, a máscara zomba dela, debocha de sua fraqueza, caçoa de seus atos cometidos ao mesmo tempo voluntária e involuntariamente. Seria uma falsa questão se perguntar se a mascara ri de fato ou se é a protagonista que vê tais expressões naquele rosto duro à medida que a dureza da prata de que é feita a máscara cede imaginativamente às feições que correspondem à consciência que a protagonista (e nós leitores) progressivamente vai tendo do mal que sonda mas em relação ao qual se vê impotente de se livrar porque consente com ele. É disso que a máscara ri – da passividade de Sônia Herries, do automatismo de suas atitudes, de sua falta de autonomia, do quanto ela mesma não pertence si própria, em suma, ri do quanto ela se aproxima da condição de objeto, ri do quanto ela se assemelha à mascara mesma.

Pois bem, vamos às fazes da máscara ao longo do conto:

"Uma máscara de prata representando o rosto de um palhaço, um palhaço sorridente, maroto, alegre, sem nenhuma sombra daquela tristeza que tradicionalmente se atribui aos palhaços."

"(...) ao olhar através do aposento para a parede de tom claro em que a máscara de prata estava pendurada. Pensou que havia algo da aparência do rapaz naquela superfície brilhante. Mas onde? As bochechas do palhaço eram gorduchas, sua boca larga, seus lábios grossos... e no entanto... no entanto..."

"Ela notou que a máscara de prata estava mudando aos poucos. As feições rechonchudas estavam ficando afiladas, havia uma nova luz brilhando nas órbitas vazias. Era mesmo uma obra belíssima."

"Houve um momento em que Sônia Herries, erguendo os olhos até a máscara de prata, teve um sobressalto ante o sorriso que viu na boca do palhaço. Era um sorriso apertado, sarcástico, quase de zombaria."

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